quinta-feira, 10 de abril de 2014






"Ofereci-te tanta coisa. A mais preciosa, aquela que há muitos anos não dava a ninguém - a mais preciosa, repito, foi a minha absoluta disponibilidade para estar contigo, ouvir-te, ou estar em silêncio perto de ti."

Al Berto

segunda-feira, 7 de abril de 2014





É por uma verdade íntima que eu te amo, Estranho.
Porque não há como desobedecer ao amor.
Portanto, eu te amo na penumbra,
Soterrando o sentimento com explicações diversas.
E, a cada dia em que me calo, disfarço e me desfaço
Do que há pulsando vivo aqui.
Mas confranjo o meu coração
Porque estreito o peito.

É de uma verdade crua esse meu amor, Estranho.
E escondo tua existência atrás dos pensamentos
Que para te ter perto
Me atiram longe.

Congelo em silêncio tua imagem,
Mas minimizo rápido o teu sorriso-tela
Como quem mancha os dedos
Na tinta fresca do desejo
E, por medo de uma possível rejeição,
Desfigura toda a aquarela.




o    Marla de Queiroz


quinta-feira, 27 de março de 2014







Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anônimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão... 

Miguel Torga

sábado, 22 de fevereiro de 2014



 



No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio


Mia Couto in Raiz de orvalho e outros poemas

sábado, 18 de janeiro de 2014




Tem  um poema da Alice Ruiz que fala:
"eu vivo disso
poesia, sonhos
e outras canções
sem emoção
morro de fome." 

A maneira como os poetas veem o mundo, como falam dos amores, das tristezas, da solidão e das dores é fascinante.
Em um conto, Caio Fernando Abreu diz: “que bom que sou criativo e   descubro a gota de mel no meio do fel.”
A visão poética tem esta capacidade: desembrutecer.
Gostar de poesia é viver de forma a enxergar beleza na feiura dos dias e é combustível para a sanidade.
Os poetas escrevem para nos emocionar, divertir ou doer. Viver a poesia é pensar as coisas do mundo de um jeito leve, chafurdar  ou questioná-las.
Utilizar a visão poética para mudar conceitos ou pré conceitos é enxergar com os olhos do coração e dar as situações mais amargas  um toque de doçura.

Quem tema o olhar poético não julga pelo ato/fato em si. Este olhar vê por trás, vê além.
Embora, para muitos, a visão poética só é possível em sonho, trago o exemplo   de Nelson Mandela que  durante os   27 anos de prisão fez da poesia  o alimento para sua luta. Foi na  poesia Invictus do britânico William Ernest  que ele encontrou a esperança e a força necessárias para manter-se vivo. Mandela contou  que toda vez que começava a esmorecer, lia e relia o texto, em busca de um companheiro para a dor. Inegável foi o efeito, visto que ele manteve o equilíbrio e a doçura do sorriso apesar de...
No conto, Os dragões não conhecem o paraíso, Caio Fernando Abreu diz: “
Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada"
Por isso, por tanto mais e por nada,  meu olhar é de poesia...

Ana Dal

* Texto para o curso de "Oratória e dicção"
- Falando do meu olhar...:)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013




Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.



Fernando Pessoa

segunda-feira, 23 de setembro de 2013




Por ti junto aos jardins cheios de flores novas
me doem os perfumes da primavera.
Esqueci o teu rosto, não me lembro de tuas mãos,
como beijavam os teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques,
as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre,
me esqueci dos teus olhos.
Como uma flor a seu perfume,
estou atado à tua lembrança imprecisa.
Estou perto da dor como uma ferida,
se me tocas me farás um dano irremediável.
Não me lembro mais do teu amor e no entanto
te adivinho atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio:
por ti volto a espreitar
os signos que precipitam os desejos,
as estrelas em fuga, os objetos que caem.
 

Pablo Neruda